Espiritualidade
quaresmal
Nelito
Dornelas
1-
Teologia e Espiritualidade do Tríduo Pascal
1- Alguns elementos históricos
“Na alegria do desejo espiritual, esperem a Santa
Páscoa!” Com estas palavras de São Bento aos seus monges, a Igreja convida a
todos a vivenciar a Quaresma como tempo de preparação para a Páscoa e também
tempo de graça e de consolo.
A Quaresma está inserida dentro do Ciclo Pascal,
cujo centro é a Páscoa. Na Páscoa fazemos memória do grande mistério da nossa
fé: o mistério da morte e ressurreição de Jesus Cristo. Sabemos pela história
que nos primeiros séculos do Cristianismo o mistério pascal era celebrado numa
grande unidade, com destaque para a Vigília Pascal.
Durante o primeiro período da história da Igreja, a
Páscoa foi o único centro da pregação, da celebração e da vida cristã. Tudo foi
visto no e do centro que é o evento de Cristo morto e ressuscitado. Na Páscoa
se concentrava toda a vida e toda a obra da salvação de Cristo. Até o século IV
permaneceu a visão global e unitária do mistério pascal com forte concentração
no “Cristo crucificado, sepultado, ressuscitado” (Santo Agostinho).
A partir do século IV, por influência da comunidade
de Jerusalém, começa a prevalecer o critério da historização dos relatos do
Evangelho e, assim, passa-se a celebrar e contemplar cada momento da paixão,
morte e ressurreição. Dessa forma, nasce a Semana Santa. Começou a celebrá-la
na quinta-feira com a instituição da Eucaristia. A celebração do batismo na
noite pascal contribuiu para criar um “antes” e um “depois” da celebração do
Tríduo Pascal. Com as conversões em massa a partir do imperador Constantino
(ano 313), a noite pascal passou a ser a grande noite batismal do ano. Na manhã
de quinta-feira acrescentou-se a Missa do Crisma. Nasceu assim a Quaresma como
tempo de preparação dos catecúmenos para o batismo e preparação dos penitentes
para a reconciliação na manhã da quinta-feira santa.
Precisamos ainda ter presente que as raízes do
catolicismo popular no Brasil estão na Idade Média europeia, tendo chegado até
nosso continente através da colonização empreendida pelos países da Península
Ibérica. O catolicismo ibérico foi absorvendo as religiões indígenas que, aos
poucos, foram perdendo o seu mundo religioso. Nessa religiosidade popular a
contribuição do catolicismo português se tornou a marca dominante.
A cristologia ibérica acentuou de maneira muito
forte a divindade de Jesus em prejuízo da sua humanidade. Na Península Ibérica o
Cristianismo chegou através da heresia ariana, a qual afirmava ser Cristo menor
do que o Pai. Em reação a isso o catolicismo hispânico acentuou fortemente a
divindade de Jesus, deixando de lado a sua dimensão humana. Criou-se uma imagem
do Cristo totalmente divinizado, e desapareceu a ideia de Jesus Cristo, irmão,
solidário, que convive com os pobres, os doentes e luta em favor da implantação
de um novo Reino. Formou-se, dessa forma, um vazio na mediação entre Deus e o
povo. Na busca de mediadores, recorreu-se aos santos, em especial à Virgem
Maria.
Essa breve visão histórica nos ajuda a entender o
descompasso que ainda persiste entre liturgia oficial, religiosidade popular e
Campanha da Fraternidade.
2- Alguns elementos teológicos.
Com a Quarta-feira de Cinzas, inicia a Quaresma e
também a Campanha da Fraternidade. É um retiro espiritual de 40 dias. A
quaresma é um tempo em que damos maior liberdade para Deus agir em nós. As
cinzas que pobremente recebemos em nossas cabeças, lembram a nossa condição
humana que é transitória e abre a porta de entrada para o caminho da Quaresma
que nos prepara para a Páscoa da Ressurreição. A Quarta-feira de Cinzas, porta
de entrada da Quaresma, começa denunciando as deficiências graves de nosso
mundo: a falta de coração puro.
A Quaresma começa na Quarta-Feira de cinzas e
termina na Quinta-Feira Santa pela manhã. A Missa do Lava-pés faz parte do
Tríduo Pascal e já está fora da Quaresma. Isso mostra que as festividades da
Páscoa começam na Quinta-Feira Santa.
Do ponto de vista físico, sabemos que as cinzas são
o produto destruído da combustão das coisas vivas. A vida está presente nas
plantas, com a morte e a combustão, tornam-se cinzas, símbolo de aniquilamento
e de morte. As cinzas representam também a escuridão, pois elas estão presentes
no apagamento da luz do fogo. Esse símbolo trágico é assumido pela Igreja, para
manifestar a realidade do ser humano quando falta a presença de Deus em sua
vida. Nos povos primitivos, as cinzas representam a combustão da vida, a
passagem ao reino dos mortos. No livro de Jó (42,6), simbolizam o sofrimento, o
luto e o remorso. No Cristianismo, tem a função pedagógica de perceber a
fragilidade humana e converter os fiéis à penitência e à conversão de vida. A
sacralização das cinzas, colocadas em forma de cruz, une os fiéis aos ritos de
passagem e purificação pelo fogo vivo do Espírito Santo.
A imposição das cinzas é um rito antigo, mas não é
antiquado e encerra uma mensagem espiritual. Não é somente um símbolo do nosso
aniquilamento, e menos ainda um gesto doentio e masoquista. É também, e,
sobretudo, um sinal de começo de vida e renovação. Com as cinzas começamos o
caminho para a Páscoa.
A cinza desta quarta-feira é a cinza de
ressurreição. Deus é capaz de tirar vida da morte e ressurreição das cinzas,
como brota a planta de um grão que morre na terra. Receber as cinzas na
quarta-feira significa inscrever-se na escola de conversão que a Igreja
inaugura no tempo da Quaresma.
A celebração da Quarta-feira de Cinzas teve início
a partir do final do século V e então começa a fazer parte da Quaresma. No
começo só os penitentes recebiam as cinzas na quarta-feira, só mais tarde é que
foi estendida a todos os cristãos. Pelo SacramentárioGelasiano sabemos que os
penitentes entram em rígido “retiro espiritual” na Quarta-feira de Cinzas até
na Quinta-feira Santa, e que a Quarta-feira de Cinzas é considerada como início
da Quaresma.
É importante observar que a “Quarta-feira de Cinzas
não poderá reduzir-se ao simples rito de distribuir as cinzas, mas deve tomar
um cunho de entrada na Quaresma que poderá ser um encaminhamento para uma
celebração penitencial a ser realizada sacramentalmente em tempo oportuno”
(Pastoral da Penitência, doc. da CNBB, pág. 42). Seria como que uma marca bem
forte, um selo que inaugura a Quaresma.
Iniciamos na Quarta-feira de cinzas, a grande
celebração anual da Páscoa, num único tempo pascal. Esta grande celebração
pascal tem a Quaresma como primeira parte. Não se trata de primeiro celebrar a
Cruz e depois a Ressurreição. Apesar de que na prática das celebrações esse
processo acontece, não devemos separar uma coisa da outra, isto é, não podemos
separar a Cruz da Ressurreição. Quando Jesus aparece aos seus discípulos após a
ressurreição, ele mostra-lhes as mãos e o lado. Isto significa que o
Ressuscitado é o Crucificado e o Crucificado é o Ressuscitado, isto é, era a
mesma pessoa (João 20,20; 25-27). No Evangelho de Lucas Jesus aparece após a
ressurreição e mostra aos seus discípulos as mãos e os pés e os introduz na
plenitude da mensagem da Páscoa. Tanto em São João com em São Lucas, trata-se
das chagas da crucificação que o Cristo ressuscitado mostra a eles. Portanto,
não podemos separar a paixão e a morte da ressurreição. É uma união
indissolúvel.
Quaresma e Páscoa, portanto, são dois tempos
profundamente ligados entre si. Celebram o mesmo e único mistério sob aspectos
diferentes, muito bem expressos por Santo Agostinho:“Foi instituída a
celebração de dois tempos: um antes da Páscoa e outro depois da Páscoa. O tempo
precedente à Páscoa figura a tribulação em que nos achamos; o que celebramos
após a Páscoa lembra a felicidade futura em que nos acharemos. Antes da Páscoa,
portanto, celebramos o que vivemos; depois da Páscoa celebramos, assinalando, o
que ainda não temos. Por isso, no primeiro tempo exercitamo-nos em jejuns e
orações; agora, terminados os jejuns, passamos o tempo em louvores. Tal é o
sentido do Aleluia que cantamos. Aleluia se traduz para o latim, como sabeis,
por: ‘Louvai ao Senhor’. O primeiro tempo, portanto, representa a fase anterior
à ressurreição; o segundo, a posterior à ressurreição do Senhor. Significa a
vida futura, que ainda não possuímos”.
Fazemos o memorial da Cruz e da paixão do Senhor,
em cada celebração, o ano todo, seja na festa do Natal, seja na Epifania, seja
em Pentecostes. Na Quaresma, acentuamos da Páscoa, o aspecto mais de “saída da
escravidão”, a libertação de tudo o que aniquila a vida humana; e a partir da
festa da Ressurreição até Pentecostes, damos graças e festejamos as coisas
novas que o Senhor já fez em nós com a força da Ressurreição. Assim continuamos
a celebrar a libertação, mas agora olhando não só de que somos libertados, mas
“para que somos libertos”, isto é, agora somos libertadores. A Quaresma está
inserida dentro do ciclo pascal, cujo centro é a Páscoa.
Os cristãos do século II se preparavam para a festa
da Páscoa com um jejum de pesar de dois dias: Sexta-feira Santa a Sábado Santo.
Esse Tríduo tinha início na Sexta-feira Santa (morte do Senhor) e, passando
através do Sábado Santo (deposição do Senhor no sepulcro), culminava na Vigília
Pascal e no dia da Ressurreição (na aurora do domingo de Páscoa). Isso nós
recebemos da tradição Apostólica de Hipólito de Roma. Esse jejum se estendeu a
toda a semana, no século III na Igreja de Alexandria no Egito.
A Quaresma nasceu entre os monges no Egito. No
início do século IV é que se organiza um período de preparação para a Páscoa de
três semanas e foi assumida pela liturgia romana como preparação para a Páscoa.
Durante estas três semanas proclamava-se o Evangelho de São João. Esse fato é
muito interessante, pois a leitura joanina era caracterizada por trechos
referentes à proximidade da Páscoa e à presença de Jesus em Jerusalém. O
historiador Sócrates nos informa que nos primeiros decênios do século V, em Roma,
a Páscoa era precedida de três semanas de preparação. A preparação para a
Páscoa de seis semanas, isto é, de quarenta dias, pelo testemunho de Pedro de
Alexandria (+311), começou pouco antes do ano 384. Tinha caráter de elevação
das virtudes cristãs e isto se explica pela introdução, na Quinta-Feira Santa,
da prática da reconciliação dos penitentes que se tinham preparado para a
Páscoa.
O símbolo litúrgico do número 40 tem uma
significação muito interessante. Na tradição religiosa é o número da espera, da
preparação, da provação e do aniquilamento. Os escritos bíblicos descrevem a
história do povo aplicando esta simbologia, assim temos o reinado de Davi por
quarenta anos (2Samuel 5,4); e também o reinado de Salomão (1Reis 11,42). Temos
os quarenta dias e quarenta noites de chuva no dilúvio (Gênesis 7,17); Moisés é
convocado por Deus aos quarenta anos; quarenta anos de caminhada do povo pelo
deserto; quarenta dias de Moisés no Monte Sinai (Êxodo 34,28); quarenta dias de
afronto de Golias contra o povo até quando Davi o enfrentou e o abateu (1Samuel
17,16); quarenta dias de caminhada de Elias para o monte de Deus, o Horeb
(1Reis 19,8); quarenta dias da pregação de Jonas em Nínive (Jn3,4). E lembramos
principalmente o retiro de quarenta dias de Jesus no deserto (Mateus 4,1-11;
Marcos 1,12-13; Lc 4,1-13). Jesus pregou quarenta meses morreu e ressuscitou e
volta ao Pai depois de quarenta dias de ressurreição. Este número está presente
em tantas outras passagens bíblicas.
Trata-se de um número simbólico, certamente, mas
nos convida a voltarmos para Deus, neste tempo de Quaresma, como foi o convite
feito por Jonas durante sua pregação ao povo de Nínive, que teve quarenta dias
para se converter e alcançar a misericórdia de Deus (Jonas 3,1-16).
A teologia da Quaresma tem seu sentido verdadeiro
no mistério pascal de Jesus Cristo, que culmina no Tríduo Pascal e que é o
fundamento de todas as nossas celebrações cristãs.
A SacrossanctumConcilium nos diz, no número 109:
“Tanto na liturgia quanto na catequese litúrgica esclareça-se melhor a dupla
índole do tempo quaresmal, que, principalmente pela lembrança ou preparação do
batismo e pela penitência, fazendo os fiéis ouvirem com mais frequência a
Palavra de Deus e entregarem-se à oração, os dispõe à celebração do mistério pascal”.
Na Quaresma, portanto, somos convidados a fazer uma
verdadeira experiência na participação do mistério pascal de Jesus Cristo.
Sofremos com Cristo para participar de sua glória (cf. Romanos 8,17).
A Quaresma tem caráter essencialmente batismal, sobre
o qual se baseia o caráter penitencial. Na verdade, a Igreja é comunidade
pascal porque é batismal. Isso deve ser afirmado não só no sentido de que nela
entramos mediante o batismo, mas principalmente no sentido de que a Igreja é
chamada a exprimir com vida de contínua conversão o sacramento que gera. Daí
também o caráter eclesial da Quaresma. Ela é o tempo de grande convocação de
todo o povo de Deus, para que se deixe purificar e santificar pelo seu Salvador
e Senhor.
Durante a Quaresma somos convidados a percorrer um
itinerário pedagógico e catequético que nos faz penetrar nos grandes eventos da
história da salvação. Durante as cinco semanas da Quaresma, na liturgia da
Palavra, escutamos a atualizamos os textos bíblicos que eram fonte de estudo e
compromisso dos catecúmenos nos primeiros séculos do Cristianismo.
3- Espiritualidade quaresmal
Por várias razões a Quaresma tem sido às vezes
considerada como um tempo de fechamento e de tristeza e também carregado de
superstições. No entanto, a característica essencial da Quaresma deveria ser a
de um tempo de austeridade e penitência, sim, mas que jamais deveria ser
confundido com ausência de alegria. “Quando jejuardes, não fiqueis como rosto
triste como os hipócritas. Tu, porém, quando jejuares, perfuma a cabeça e lava
o rosto, para que os homens não vejam que tu estás jejuando, mas somente teu
Pai, que está oculto” (Mateus 6,16-18). É certo que temos de fazer penitência,
é certo que o seguimento de Cristo nos pede renúncias dolorosas, em certas
ocasiões; no entanto a alegria de nos assemelharmos a Jesus Cristo ressuscitado
tem de produzir em nós um regozijo maior. A penitência quaresmal por isso deve
ter sempre uma dimensão de prazer e alegria. Nesse sentido é importante
resgatar o verdadeiro sentido, dando um sentido mais pascal a certas práticas e
gestos que fazemos.
Seria muito interessante que na Quaresma pudesse
ser para as comunidades cristãs, algo correspondente ao que, para as escolas de
samba e blocos de carnaval, é o tempo de treinamento e concentração necessário
à grande festa do carnaval. Já desde o fim do carnaval deste ano, se prepara o
próximo desfile.
Um exercício libertador seria abrir-nos mais à
escuta da Palavra de Deus, confrontando-a com nossa vida e participarmos mais
ativa e efetivamente nas celebrações litúrgicas. O essencial é que haja em nós
uma verdadeira metanoia, ou seja, a conversão do coração e da mente, em todos
os aspectos da nossa vida cotidiana. A prática da penitência deve ser encarada
não só no sentido individual, mas na sua dimensão comunitária, percebendo a
dimensão social do pecado e suas consequências na vida da comunidade e da
sociedade.
A prática do jejum, no tempo da Quaresma, precisa
ser redescoberta. Trata-se não só de privar-se da gestão de alimentos, mas
também de fazer uma contestação a tantas comodidades que a vida moderna nos
oferece. Seria reforçar o nosso autodomínio, cuidar da nossa saúde, não
desperdiçar, não entrar na onda do consumismo desenfreado e se abrir e
partilhar com quem precisa da nossa solidariedade. Podemos encarar o jejum no
sentido de renúncia.
O saudoso Pe. Geraldo Leite, no Recife, orientava
sua comunidade para “jejuns” bem específicos:
a) jejum
da língua: evitar de falar o que não se deve. Fofocas, maledicências (primeira
semana);
b) jejum
dos passos: evitar frequentar lugares inconvenientes a um bom cristão
(segundasemana);
c) jejum
da vista: por exemplo, evitar novelas e certos programas de TV para participar
dos encontros durante a semana, via-sacra, caminhadas penitencias (terceira
semana);
d) jejum
do gosto: em comunhão com os que passam fome, evitar aqueles alimentos que
mais apreciamos, como doces, sorvetes (quarta semana);
e) jejum
do coração: buscar sempre o desapego das coisas que nos atrapalham de entrar no
seguimento de Jesus Cristo (quinta semana).
Durante a Quaresma a oração também deveria adquirir
um novo sentido. Deveria não só ampliar a intensidade da oração individual e
comunitária, mas também rezar em espírito e verdade, isto é, abrir-nos para o
desejo de Deus em nós, para a gratuidade e o perdão, acolhendo a ternura e o
abraço carinhoso de Deus que quer fazer de nós novas criaturas.
Irmã Penha Carpanedo e Pe. Marcelo Guimarães têm
uma explicação excelente para a Quaresma:
“Celebrar a Quaresma é festejar o refazer da
aliança de Deus com a gente e que o nosso pecado e nossa negligência romperam.
É renunciar aos nossos instintos egoístas e abrir-nos mais ao plano do Deus da
vida. Celebrar a Quaresma é intensificar a oração, o jejum e a caridade, para
vivermos mais consagrados ao Deus que nos reconciliou com ele. Celebrar a
Quaresma é deixar-se conduzir ao deserto, para que o Senhor nos fale ao
coração. É rever as linhas de conduta, corrigir os erros de trajetória,
aprofundar a unidade entre nós. É assumir e reconhecer o negativo, a morte, o
sofrimento, para vencê-los e superá-los. Como o grão de trigo que morre para
nascer. Como a mulher que está para dar à luz e sofre as dores de parto. Como a
uva que se esmaga para fazer o vinho que alegra a nosso coração.”
Podemos também comparar com a vela que se acende.
Para clarear ela derrama lágrimas para que todos possam contemplar a beleza da
claridade.A espiritualidade quaresmal é caracterizada também por uma atenção,
profunda e prolongada da Palavra de Deus. É esta Palavra que ilumina a vida e
chama à conversão derramando em nós confiança na misericórdia de Deus.
É preciso urgentemente fazer da Quaresma um tempo
favorável de avaliação de nossas opções de vida e linhas de trabalho, para
corrigir os erros e aprofundar a vivência da fé cristã, abrindo-nos a Deus, ao
próximo e realizando ações concretas de fraternidade e solidariedade.
A Quaresma é um tempo forte de conversão, de
mudança interior, tempo de deixar tudo o que é velho em nós, tempo de assumir
tudo o que traz vida para todos nós, em nossas famílias, em nossas comunidades
e em nossa sociedade.
Quaresma é:
a) Tempo
de nos abrir para a novidade que brota da Cruz de Cristo como sinal de nossa
salvação.
b) Tempo
de sermos novas criaturas revivendo a atualizando nosso batismo e assim
Confirmamos nossa pertença à Igreja, povo de Deus.
c) Tempo
de buscar a libertação do povo hoje tão sofrido e tão explorado e vítima de
tantacorrupção, desmandos e descasos.
d) Tempo
de abandonar os ídolos modernos e de renovar nossa fidelidade ao Deus vivo
everdadeiro através da escuta atenta da sua Palavra.
e) Tempo
de subir ao monte Tabor com Jesus Cristo, viver na intimidade com Ele e
alegrarcom sua amizade e sua ternura.
f) Tempo
de descer para o chão da vida, ver o rosto transfigurado de Jesus no deficiente
físico, no pobre, no doente, no injustiçado.
g) Tempo
de nos deixar tocar pelo amor misericordioso do nosso Deus.
h)Tempo
de ressuscitar com Cristo e nos colocar a serviço do seu Reino.
i) Tempo
de defender a casa comum, a vida humana, a natureza, o meio ambiente e promover
políticas que garantam o saneamento básico para todos.
j) Tempo
de sanear o coração.
Quaresma da misericórdia
Pe. Adroaldo
“Cuidado! Não
pratiqueis vossa justiça na frente dos outros, só para serdes notados”(Mt
6,1)
Em meio a um mundo
desumanizado e sacudido pela violência, lutas fraticidas, intolerância e
egoísmo exacerbado, o papa Francisco nos convida a viver um Jubileu
extraordinário, colocando a Misericórdia
no centro de nossas vidas e respondendo ao chamado que Cristo nos faz: “sede
misericordiosos como o Pai”.
De maneira especial, o tempo Quaresmal pode ser um momento
privilegiado para que deixemos transparecer no mundo a missão de testemunhas da
Misericórdia de Deus Pai-Mãe.
A Quaresma pode ser o ponto de partida de uma transformação de vida;
os quarenta dias de duração são um tempo propício para viver a “operação
saída”, ou seja, expandir a vida em novas direções, rompendo com aquilo que é
rotineiro, estreito e atrofiante. Se, nesse tempo, algo calar fundo, o ano se
tornará pequeno para aquele que vive uma existência com mais intensidade,
coerência e solidariedade.
Este tempo litúrgico
especial certamente mobilizará e ativará todas as dimensões de nosso ser:
nossos sentidos se expandirão, olhando, escutando e sentindo a realidade que
nos envolve; nossa mente tornar-se-á mais clara, sabendo discernir e não se
deixando manipular; nosso coração se fará mais atento e misericordioso diante
do sofrimento humano; nossa alegria será o fermento do pão cotidiano,
compartilhado com os outros. E se dedicarmos mais tempo ao silêncio e à oração,
recobraremos energia e sentido, necessários para sair da “normose doentia” de
todos os dias.
A Igreja nos
proporciona este momento litúrgico como parada estratégica em meio à voracidade
do caminho e perguntar-nos se vivemos como realmente desejamos viver; se haverá
algum reajuste necessário para reorientar nossos passos de maneira mais
acertada, para estabelecer uma harmonia entre cabeça e coração, desejos e
hábitos. A Vida de Jesus, testemunhada nos evangelhos, nos convida a viver de
um modo mais integrado e unificado.
Somos o que somos
graças a essa matriz de relações que
nos conecta conosco mesmos, com os outros, com o Outro e com as criaturas. Não
nos estranhará, então, que a liturgia nos convide a perguntar a nós mesmos como
nos relacionamos com nossos desejos/impulsos/decisões (jejum), como consideramos os nossos semelhantes (esmola) e como cuidamos de nossa
amizade com Deus (oração).
Nesta perspectiva, as
três disciplinas espirituais da Quaresma (oração, jejum e esmola), encontram
sua relação com as três dimensões do amor:a
Deus, ao próximo e a si mesmo. Não é preciso estar publicando no Facebook ou no
WhatsApp cada pequeno passo adiante. De fato, nos diz Jesus: “Vosso pai, que vê nosegredo, vos
recompensará”.
Neste ano em que
celebramos o Jubileu extraordinário da Misericórdia,
as práticas
quaresmais que a liturgia busca ativar (oração, jejum e esmola) vão
mais além de nós mesmos: elas devem ter impacto na relação com os outros, em
especial com aqueles que mais sofrem e se encontram mais excluídos.
Com a Quarta-feira de Cinzas
damos início à Quaresma e entramos num movimento de discernimento: de quê jejuar
e com quê saciar-nos nesse tempo litúrgico? Mais que jejum de alimento e
bebida, podemos jejuar de soberba, de vaidade, de consumismo, de fazer-nos
centro de tudo, de ativismo, de afetos desordenados (smarts, internet...),
jejuar de desculpas frágeis e de distâncias, de indiferença e de frieza nos
relacionamentos.
Tudo aquilo de que
jejuamos, deixa um vazio em nosso interior e que só o amorpoderá preenche-lo. O jejum ativa o dinamismo do amor que nos
faz mais compassivos, solidários, misericordiosos. Em definitiva, o jejum e a
abstinência nos conduzem ao autocontrole e à autoestima e são sinônimos de
desintoxicar-se, desconectar, desapegar-se, desprender-se. Ou seja, fazer tudo
o que nos leve a ser pessoas mais equilibradas, autônomas e livres que tem mais
tempo para amar a Deus e ao próximo.
A esmola (“elemosyne”) sempre esteve ligada à compaixão e piedade.
Quem partilha do que tem é compassivo e misericordioso (“eleémon”). Trata-se,
fundamentalmente, da inclinação para os desfavorecidos. A misericórdia (qualidade da esmola) é a atitude própria de quem tem
um coração sensível à miséria do outro. Mantém indissoluvelmente unidos o
sentimento de compaixão e ternura com a solidariedade efetiva. Está atenta à
necessidade de cada pessoa, que em uns casos será econômica, em outras,
psicológica, em muitos, afetiva.
A esmola – misericórdia em ação – é uma atitude central para o
cristão. Uma das suas qualidades mais atraentes é precisamente sua capacidade
para criar laços de comunhão. Se cada um põe seus dons e bens a serviço dos
outros e se deixa socorrer em suas necessidades, criará verdadeira comunidade.
A oração nos ajuda a amar a Deus e a colocá-Lo como centro de nossa
vida. A vivência da oração e de todas as práticas associadas a ela, como o
silencio, a solidão, a reflexão, a “consciência plena”, a meditação bíblica, a
participação na liturgia da comunidade, a leitura de um livro de
espiritualidade nos preparam e nos ajudam a entrar em sintonia com a ação de
Deus no mais profundo de nosso ser.
Quando oramos,
conhecemos e amamos mais a Deus, sentimos sua misericordiosa presença em nosso
dia-a-dia, alimentamos nossa vida interior, somos menos artificiais, nos
fixamos mais naquilo que nos é dado continuamente como graça, vivemos em
contínua gratidão por estarmos rodeados de tanta ternura e beleza, mesmo em
meio às situações conflitivas, despertamos empatia para com aqueles que mais
sofrem, recobramos novo ânimo para ajudá-los, somos conscientes de nossa
fragilidade e pequenez, ao mesmo tempo que cresce em nós a percepção de nossa
maravilhosa dignidade de filhos ou filhas de Deus.
À luz da misericórdia, a esmola, a oração e o
jejum não são cargas pesadas sobre nossas costas neste tempo quaresmal e que
podemos esquecê-las dentro de algumas semanas. Não são um evento, mas um modo
de proceder que tem ressonância na nossa vida. Por isso mesmo, tais práticas quaresmais
são uma autêntica revolução e uma alternativa para viver com sentido.
Aqueles que se empenham
pacientemente em dar à sua vida um perfil mais evangélico acabam se deparando
com o valor do pequeno e do que não é ostentoso, daquilo que nasce do mais
profundo e que tem a autenticidade das coisas verdadeiras.
Esse é o movimento de vida despertado pelo tempo
quaresmal.
Texto
bíblico: Mt 6,1-6.16-18
Na
oração: A oração
é o lugar onde se pode indicar “o escondido”, onde aprendemos a decifrar a
vida, onde buscamos ter acesso ao nosso tesouro mais apreciado, aquele que não
pode ser arrebatado à força e não pode ser comprado por nenhum valor, embora
podemos facilmente perdê-lo.
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